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03 novembro 2010

DESIGN(ERS) DA FEIRA


Comecei escrevendo esse texto preocupado com a linguagem, o conteúdo e a forma de como iria expor um assunto tão rico e tão interessante que é o design improvisado. Com um olhar mais técnico busquei me aprofundar ainda mais, procurando pesquisadores que me indicassem fontes essenciais para a coleta de dados. Foi então que li o livro de Lina Bo Bardi, Tempos de Grossura: O Design no Impasse; um pouco da tese de mestrado de Rodrigo Boufleur, A questão da Gambiarra: Formas Alternativas de Desenvolver Artefatos e suas Relações com o Design de Produto; visitei o site da Rede Design Brasil e soube da ONG Cipó – Comunicação Interativa e procurei me informar sobre o seu trabalho, mas o que enriqueceu ainda mais a minha pesquisa foi uma visita às feiras de São Joaquim e a da Sete Portas, em Salvador.

Fotografando e vivenciando este “mundo” intitulei meu texto de Design(ers) da Feira e resolvi expor o que vivenciei de uma forma mais livre, espontânea e improvisada assim como o design da feira.

Começa bem cedo a vida dessas pessoas que oferecem diversidade em produtos e alimentos à população baiana e aos que visitam a feira. O expediente começa logo pela madrugada e se estende ao fim do dia. A movimentação nestes locais é grande, principalmente pela manhã, onde as pessoas buscam alimentos mais frescos, mas se engana quem pensa que na feira são somente os alimentos que são os mais procurados.

Após os cliques de Sérgio Guerra, que causou grande repercussão nacional e internacional, a feira de São Joaquim se tornou um local bastante visitado por turistas, o que aumentou a procura por artesanatos, que se diferenciam pela forma e pelo material utilizado, ou melhor, reutilizado.

Quem visita as feiras pode observar a criatividade dessas pessoas que reutilizam materiais, recriam objetos e ainda mantém os costumes. O fogareiro é feito de cilindro de oxigênio seccionado, a antena para TV é feita por tubos de PVC, a churrasqueira feita a partir de uma jante de um automóvel e os candeeiros (fifós) de vidros, latas e folhas de flandres.

Cada peça é única pela forma que é trabalhada e concebida.

Também chamado design espontâneo, improvisado, vernacular ou popular, esta arte de recriar é bem característico de um povo: o nordestino. Estes designers, perante as dificuldades da vida, mediante a necessidade da sobrevivência, se apropriam de objetos usados, definidos por muitos como lixo, para reutilizá-lo como matéria-prima para reconstruí-los, agregando nova função para vender, gerando renda, ou para seu próprio uso.

Rodrigo Boufleur, em sua dissertação, utiliza o termo “gambiarra” para definir esta prática e induz a uma reflexão sobre valores, mitos e significados; as contribuições e consequências dos objetos na configuração da cultura e no desenvolvimento da sociedade pós-moderna. Ainda expõe sobre o resgate da função social do design, a problemática do lixo e a identidade da cultura material brasileira.

Nas fotografias, é possível observar as “gambiarras” feitas pelos feirantes. O vendedor de salgados fez uma adaptação de um recipiente de poliestireno sobre um carrinho de malas que acoplada à vasilha de salgados se torna um carrinho para venda de salgados completo com guarda-volumes.


O carregador de compras adaptou o carro de mão com rodas maiores, além de deixá-lo mais alto e menos inclinado, facilitando e tornando menos incômodo o seu uso.


Lendo Tempos de Grossura: O Design no Impasse me deparei com um texto de Jorge Amado que foi escrito para a Exposição Bahia, primeira grande exposição de arte popular nordestina em 1959 e o seu discurso é tão atual que dialoga com as fotografias aqui mostradas.

“Aí estão os fifós que iluminam as casas mais pobres, aproveitamento de vidros vazios de remédios e pedaços de latas. Mostrando a arte do povo e, ao mesmo tempo, sua vida(...) Esteiras, rêdes, panelas de barro, potes para água fresca, aquilo de que o homem se serve para o cotidiano da vida, pobres objetos que iluminam sua pobreza com a poesia de um desenho, de uma flor, de um figura. Tudo o que o povo toca, nesta terra da Bahia transforma-se em poesia, mesmo quando o drama persiste.”


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Edileno Capistrano Filho, soteropolitano, é graduado em Desenho Industrial - PV pela UFBA. Atualmente trabalha como Designer Gráfico na FUNCEB. A tipografia brasileira tem atraído a sua atenção ultimamente. Tímido, mas inquieto é mais ouvinte que falante. Gosta de curtir uma boa música, e arrisca tocar instrumentos de corda como o cavaquinho e o violão. @capistranofilho

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