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08 junho 2009

MERECEM RESPEITO

(publicado em 08.06.09)

fonte: Plínio Delphino, Diário de São Paulo.

Psicólogo varreu as ruas da USP para concluir sua tese de mestrado da 'invisibilidade pública'. Comprovou que as pessoas enxergam apenas a função social do outro. Quem não está bem posicionado, vira sombra social.

O psicólogo social Fernando Braga da Costa vestiu uniforme e trabalhou oito anos como gari, varrendo ruas da Universidade. Constatou que, ao olhar da maioria, os trabalhadores braçais são invisíveis. Em sua tese, conseguiu comprovar a existência da 'invisibilidade', uma percepção humana condicionada à divisão social do trabalho, onde enxerga-se a função e não a pessoa. Braga trabalhava meio período como gari, não recebia o salário de R$ 400 como os colegas de vassoura, mas garante que teve a maior lição de sua vida:

"Descobri que um simples bom dia, que nunca recebi como gari, significa um sopro de vida".

O psicólogo sentiu na pele o que é ser objeto e não humano. 'Professores que me abraçavam passavam, não me reconheciam por causa do uniforme. Esbarravam no meu ombro, sem pedir desculpas. Ignorando-me, como se fosse um poste.

No primeiro dia de trabalho paramos pro café. Colocaram uma garrafa térmica sobre uma plataforma. Não tinha caneca. Havia um clima estranho. Os garis mal conversavam comigo. Alguns ensinavam o serviço. Um deles foi ao latão de lixo pegou duas latinhas de refrigerante. Cortou-as pela metade e serviu o café, na latinha suja. E como estávamos num grupo grande, esperei se servirem primeiro. Nunca apreciei o sabor do café. Mas, senti que deveria tomá-lo, não livre de sensações ruins. Afinal, as latinhas foram tiradas dentro da lixeira. Quando empunhei a caneca, todo mundo parou para assistir à cena, como se perguntasse:
'E aí, o jovem rico vai se sujeitar a beber nessa caneca?' E bebi. A ansiedade evaporou-se. Passaram a conversar comigo, contar piada, brincar.


O que sentiu na pele, trabalhando como gari?

Uma vez, um dos garis me convidou pra almoçar no bandejão central. Entrei no Instituto de Psicologia para pegar dinheiro. Passei pelo térreo, subi escada, passei pelo segundo andar, na biblioteca, desci escada, passei no centro acadêmico, lanchonete, tinha muita gente conhecida. Fiz todo trajeto e ninguém me viu. Tive uma sensação ruim. Meu corpo tremia. Não o dominava. Uma angustia, e a tampa da cabeça ardia. Fui almoçar. Não senti o gosto da comida e voltei ao trabalho atordoado.

Depois de oito anos como gari? Isso mudou?

Fui me habituando a isso, assim como eles vão se habituando também a
situações insaudáveis. Quando via meu professor se aproximando, até parava de varrer. Ele passaria, poderia trocar uma idéia, mas passava como eu fosse um poste, uma árvore, um orelhão.


Na volta para casa, no mundo real, choro. É triste. A partir do instante que você está inserido nessa condição, não se esquece jamais. Essa experiência me deixou curado da minha doença burguesa. Esses homens hoje são meus amigos. Conheço suas famílias, freqüento-as. Mudei. Nunca deixo de cumprimentar um trabalhador. Faço questão dele saber que existe. São tratados pior que um animal doméstico, que é chamado pelo nome.

Ser IGNORADO é uma das piores sensações que existem na vida!

Um comentário:

  1. Parabéns! Continuem postando materias como esta, pois, os exempos VIVIDOS NA PELE são as melhores lições de vida.

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