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24 novembro 2010

ABRAVANATION, CORES À EXAUSTÃO


Por Suria Neiva


“The Youth”, clipe da banda MGMT: foi o primeiro link que fiz com o Abravanation, de Rick Castro.

Movimento/ Manifesto artístico batizado via sobrenome real de Sílvio Santos. O verbo “abravanar” nasceu quando a filha do ícone pop televisivo foi resgatada do sequestro sofrido em 2001. A jovem, ao ser liberta, pediu para não julgarem os sequestradores e sim amá-los. O que Rick Castro achou disso?, bem, ele achou que a “Abravanel abravanou!”.


Frase starter bem Dadá, aliás, para o arquiteto e artista visual vislumbrar seu movimento. Abravanar: a liberdade e a liberação de seu ‘eu’, do amor, de sua autoexpressão. Pela própria motivação do Abravanation (é assim mesmo, não estou ironizando à la Rebolation), simplesmente vale tudo. Mas diferente do Mixed Martial Arts, o vale tudo do Abravanation é na base do “paz e amor”.

Tomou forma em colagens, objetos, murais, festas, instalações e intervenções - e em informação fashion também: leia-se Dudu Bertholini & Rita Comparato, seus amigos e parceiros em empreitadas abravanescas. E pra encontrar o trabalho do moço, é bom checar na Galeria Casa triângulo, São Paulo, que o rapaz está lá.

O movimento do Abravana foi comunicando suas referências. Se declara Antropofágico. Traz os Anos 60/70, clubbers com néon e tons metalizados. Secos e Molhados/ Ney Matogrosso. A Tropicália. New Wave. Chacrinha. Indies. Gay Parade. Folclore Nordestino. Madonna. Circo. Lucy In The Sky. Carnaval. E eu acertei quando me lembrei do MGMT, em um dos seus menos perturbadores videoclipes.

A música “The Youth” fala da juventude se transformando, aprendendo juntos a “viver e amar e dormir juntos / Podemos inundar as ruas com amor, ou luz, ou calor, tanto faz / Tranca os pais lá fora, rasga o tapete, gira e grita”. Aparecem crianças dublando os adultos da banda; estranheza pelo “fake” proposital. E apesar do glitter do cenário e do figurino, a pesada sobriedade das crianças. Mas, em comparação, Rick Castro não desenvolve um discurso, uma análise, uma dialética; quem sabe ele proponha a negação da mesma? (sic). Certo é que a palavra da vez é “hiperbólico” com-qualquer-coisa, e em qualquer lugar. Inclusive em intervenção no MAM-SP.

Muitas pessoas vão suspirar frente ao caos colorido, improvável dresscode para o dia-a-dia. Será? É fundamental o colorido, na rua, na chuva e na fazenda, no prato que comemos e na vida em geral. Muita calma nessa hora, até porque tranquilidade zen é algo que não está contemplado no significado de Abravanar. Nem qualquer pretexto mais elaborado, até agora. Mas Cibelle cantou com eles no palco.


Seria possível que em questão de meses acendamos o néon-flúor-pop-glitter em nossos armários baianos? A moda, como diz o livro cânone, se move em espirais. Pêndulos, se quiser termo da literatura. E na dedicatória do livro Espirais da Moda, tem citação de V.Nabokov , nos lembrando que “(...) toda síntese é a tese da que se segue”. Será que o Abravana chega a ser síntese? Não sei. Mas está aí, a olhos vistos e exauridos de tanta informação aleatória.

Sinto que faltou essa definição para o termo Abravanar, “agir com base em aleatoriedades”.

Agora, cá pra nós: em uma das cidades do planeta Terra mais iluminadas pelo Sol, acho um desperdício de corantes caríssimos em tecidos sintéticos cobrindo todo o corpo, esquentando e transpirando, apenas para se ter mais área “colorável” – em maiôs e leggings, saiões e estolas, franjas, lycra, brechó, plumas e paetês literais, muuuuita maquiagem e cores ao léu. Não, não creio que isso responda à necessidade – natural - de cores.

Ser colorido... Sabe o Restart? Tá bege-lavado, filha. Fazer o quê.


A título da síntese, creio que no Abravanar falta l’esprit du temps dos anos 60/70: as revoluções socialmente engajadas. Eu diria mesmo, humanamente engajadas. É interessante ver que no vídeo “Abravanation Paulista”, Rick e Renata Abbade descem das escadas da FIESP, após o segurança observá-los (eu ri) e pedir gentilmente, a despeito da câmera que o paralisou por alguns minutos, que os performers se retirassem para a calçada da Avenida Paulista. Nada de questionamento de autoridades, nem mesmo de autoridade de guardinha. Música da Banheira do Gugu e run, Forrest, run.


Okei, then: paz, amor - e a nova palavra de “ordem”: Abravana Alucinete Fogo. Uhu!...


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Suria Neiva é graduanda em Design pela UFBA, às voltas com suas últimas matérias de Projeto - ousando Design de Moda. Mãe de Caian, pequeno já fascinado por Design, se divertem discutindo projetos mirabolantes (para ele, tudo normal). Escreve seu blog de poemas, Águas de caneta. @SuriaNeiva

Um comentário:

  1. Meus amores, um post com tutano! Que bom! Menina, adorei sua análise!

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